A "pior" banda do mundo fala tudo

(Ricardo Franzin, Rock Brigade nº 130, maio/97)

Nenhuma banda de metal nacional protagonizou tantas polêmicas quanto o Sarcófago. Tetras com o Sepultura (ex-banda de Wagner Lamounier, guitarra e vocais), mudanças de visual, briga com o R.D.P. e uso de bateria eletrônica nos últimos álbuns são apenas algumas das controvérsias que contribuíram para conferir ao grupo a aura de maldito. No momento em que é editado seu mais novo CD, The Worst, tivemos na própria redação da Brigade uma conversa franca com Wagner e Gerald Minelli (baixo, programação da bateria e teclados), - a dupla que hoje forma a banda - em que todos esses tópicos, e outros mais, foram abordados. Algumas das declarações de ambos foram realmente surpreendentes. Portanto, basta de enrolação e vamos ao que interessa.

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ROCK BRIGADE - Ouvindo The Worst, dá pra perceber que vocês deram uma freada em relação ao Hate [quinto disco], embora ainda existam faixas bastante rápidas. Ele soa como uma mistura do The Laws [Of Scourge, terceiro disco] com o Hate.
WAGNER LAMOUNIER - Exatamente. Você acabou de definir o que aconteceu. Quando a gente fez o Hate, quisemos fazer uma coisa que o Sarcófago sempre tinha se proposto, mas nunca tinha tido culhões pra fazer, por limitações humanas pode-se dizer. A proposta do Hate era ser o disco mais agressivo da história, o mais rápido possível. Com um baterista normal, nós não conseguiríamos o resultado que queríamos, então, utilizamos o recurso da bateria programável. Só que, por outro lado, o The Laws... é um disco que agente gosta bastante também. A gente achava que o Hate tinha saído bem por esse lado da velocidade, mas queríamos mostar que o peso também faz parte do Sarcófago.
GERALD MINELLI - Nós percebemos que se nós conseguíssemos juntar as duas coisas nós teríamos um resultado muito legal. Por exemplo, as partes de guitarras do The Laws... nos deixaram bastente satisfeitos, mas as de bateria não, principalmente nas partes rápidas. Então, percebemos que poderíamos agrupar no The Worst partes do Hate e também de todos os nossos álbuns. Se você for analisar bem, o The Worst é uma retrospectiva, desde as épocas do I.N.R.I.
WAGNER - É uma reafirmação da linha do Sarcófago. Com a gente, ou a música é extremamente pesada ou é extremamente rápida. No The Worst, tentamos deixar as músicas pesadas o mais pesadas possível e as músicas rápidas o mais rápidas possível. Continuamos usando a programação eletrônica, já que na época do Hate isso teve mais um caráter mais experimental, tipo: "Vamos usar pra ver como é que fica." Só que, antes, o próprio recurso de programação era limitado, você não conseguia fazer tantas variações e algumas partes ficaram até meio enjoativas. Neste disco novo, tentamos mostrar que, com a programação eletrônica, poderíamos ser rápidos e com a bateria trabalhada. Conseguimos fazer coisas que queríamos ter feito no Hate, mas que não tivemos condições.

RB - E ao vivo, como vai ser?
WAGNER - Nós não vamos mais tocar ao vivo, desde a época do Hate que não tocamos. A gente não tem mais saco pra tocar ao vivo, nunca foi nossa intenção viver da banda.

RB - Nem na época que vocês foram tocar na Europa?
WAGNER - Não. Naquela época, conciliávamos nossas atividades particulares com o conjunto. Nunca tivemos a proposta de querer viver de música, isso foi sempre um hobby pra nós. Por isso, sempre fizemos o que a gente quis, nunca demos satisfações pra ninguém.
GERALD - Na época do The Laws... estávamos a fim de fazer shows e fizemos um monte, na Europa, na América do Sul. Aí, resolvemos botar um ponto final nisso. Só fizemos uns poucos shows na Argentina, Chile, Peru e Brasil depois disso. Vai fazer um ano que agente não se apresenta. Só vamos fazer shows esporádicos, em ocasiões especiais, como o show em homenagem ao Osvaldo [do Sextrash, falecido em março de 97], em que tocaremos com a formação do I.N.R.I. [o show estava marcado para rolar no dia 21 de abril último, em BH, para angariar fundos para a conta do hospital em que Osvaldo ficou internado antes de morrer].

RB - Por que vocês resolveram mudar tão radicalmente o visual? Isso deu margem pra muita fofoca, inclusive, chegaram a dizer que vocês arrumaram empregos como bancários e, por isso tiveram que cortar o cabelo.
WAGNER - [risos] Desde a época do segundo Rock In Rio que cabelo grande virou uma coisa vulgar [N. do R.: a letra de Shave Your Head, do novo álbum, trata disso]. A gente respeita quem ainda tem, mas, hoje, qualquer boyzinho que ouve Pearl Jeam ou Nirvana quer deixar o cabelo comprido pra ganhar menininha. Quando a mentalidade do pessoal que deixava o cabelo crescer passou a ser essa, vimos que não combinava mais com a gente. Desde o início o Sarcófago tentou ser diferente. Hoje em dia, por exemplo, nove entre dez bandinhas novas que aparecem por aí estão usando maquiagem. Na época que a gente usava, todo mundo metia o pau, falava que a gente era ridículo. Quando a gente cortou o cabelo, todo mundo criticou. Hoje em dia, já tem uma série de bandas cortando o cabelo também. E bandas famosas inclusive.
GERALD - Mas a gente não sai por aí fazendo propaganda do que a gente faz. Quem quiser falar, que fale. A gente divulga o nosso trabalho mais entre os meios underground, não saímos por aí dizendo: "Cortamos o cabelo por isso, por isso e por isso". Só falamos se nos perguntarem.

RB - Por que a letra de Purification Process não saiu no encarte do CD? Tem alguma coisa a ver com a temática que, segundo o que está escrito no release, chega a ser fascista, pois diz-se lá, entre outras coisas, 'fuck off the indians', 'fuck off the browns' [N. do R.: 'fodam-se os índios', 'fodam-se os marrons']?
WAGNER - Não, não tem nada de 'fuck off the indians' ou 'fuck off the browns'. Tem mais a ver com homossexualismo e uso de drogas.

RB - Mas está escrito aqui, 'fuck off the indians' e 'fuck off the browns'.
WAGNER - Onde? [mostramos o release] Quem escreveu isso aí foi o João [N. do R.: dono da Cogumelo, gravadora da banda]. No caso do 'indians', é mais no sentido do pessoal que está misturando sons tribais com música pesada. Mas os 'browns', em relação aos negros, não tem nada a ver, não temos nada contra os negros. As minorias a que estamos nos referindo são os homossexuais e os viciados em drogas. Tem-se que botar um fim nisso. O problema não são as pessoas que fazem merda, são as pessoas que fazem merda e acabam levando outras junto com elas. Isso nos deixa putos.
GERALD - Mas a gente não colocou a letra não porque não queríamos, mas porque foi cortada mesmo, censurada. Inclusive, outras músicas do disco falam, mais ou menos disso, como a própria The Worst.

RB - Aliás, por quê o nome do disco é The Worst?
WAGNER - Bom, além de ser uma homenagem às pessoas que costumam eleger o Sarcófago a pior banda do Brasil...

RB - Mas ao mesmo tempo que vocês são a pior, muita gente vota em vocês como a melhor.
WAGNER - Mas a gente assume, queremos ser a pior [risos]. Mas é uma relação de extremos mesmo, ou o cara gosta ou ele odeia. Mas, voltando, o nome também se refere às pessoas que pensam em praticar suicídio, àquelas que se matam aos poucos com drogas e coisas assim. As pessoas que estão na merda acham que se se matarem tudo vai melhorar. Para elas, queremos dizer que o pior ['the worst'] ainda está por vir. A mensagem que queremos passar é que sempre devemos ver o lado positivo das coisas.

RB- Mas vocês acham que essa mensagem fica clara no disco, já que tudo nele é bem deprê?
GERALD - Mas se você for analisar bem as letras, vai ver que o que queremos passar é um incentivo contrário a tudo aquilo que mostramos no encarte.
WAGNER - Analise bem as letras de The Worst, Army Of The Damned e Plunged In Blood. Elas têm a mesma temática, uma seqüência. Uma é o antes do suicídio, a outra durante e a outra o depois. Daí dá pra entender melhor o que queremos passar. As imagens do encarte são fortes justamente pra chocar e pra mostrar o que pode acontecer.

RB - Nesta mesma edição da RB está saindo uma entrevista com o D.R.I. e voltou à tona um assunto meio antigo, que é a briga que rolou quando vocês abriram pra eles em 92. O que realmente aconteceu?
WAGNER - O que rolou de verdade foi que o pessoal do Ratos de Porão ficou com dor de cotovelo porque eles queiram abrir o show do D.R.I. no Brasil, já que gostavam muito da banda. Mas o Walcir, da Woodstock, que estava organizando o show, preferiu colocar o Sarcófago. Daí, os caras {R.D.P.] ficaram putinhos, conseguiram entrar no camarim e começaram a armar uma confusão.

RB - É verdade que o João Gordo estava armado?
WAGNER - Tava armado nada. Se tivesse armado, tinha dado tiro.
GERALD - Bom, tava armado de corrente, essas coisas.

RB - Ele simplesmente chegou no camarim...
WAGNER - Ele tava bêbado e falando merda pra caralho. Daí nós fomos tirar satisfação e o pau quebrou. Só que eles estavam em maioria, estavam na cidade deles. Mas também, eles [Ratos] não voltaram muito tranqüilos pra Belo Horizonte depois. Os caras do D.R.I. entraram na briga porque eles não sabiam o que estava acontecendo. Viram o pau quebrando ali do lado deles e entraram batendo em todo mundo. Um cara da equipe deles quebrou o braço...
GERALD - Mas isso não foi culpa da gente, não. Foi o pessoal do Gordo, que tava dando correntadas. Mas é uma coisa do passado, que já passamos a borracha em cima. E nós não temos nada contra o pessoal do D.R.I. também, mas eles devem ter ficado com uma impressão negativa pelo ocorrido. Imagine, eu te levo lá na minha cidade e, de repente, o pau tá comendo, cê tá levando porrada...
WAGNER - E todo mundo falando e discutindo em outra língua, você não entendendo nada. Mas quem causou tudo foi o pessoal do Ratos de Porão. Qual outro motivo teria eles para estarem lá no meio dos camarins, sendo que eles não estavam tocando nem nada e estavam loucos pra tocar? O próprio Walcir falou isso. Os caras ficaram putos.

RB - [p/ o Wagner] O que você acha do que está acontecendo com o Sepultura?
WAGNER - O quê? Quem? Não conheço, não sei quem é [risos].

RB - Você acha que o sucesso que rolou com eles foi benéfico para as bandas brasileiras?
WAGNER - Não acho nada.
GERALD - Eu acho que eles estão passando por uma crise, como toda banda, e eles têm que resolver isso. É como uma família. Se tem um problema na sua família, você resolve. Agora, eles têm que se virar.

RB - E quanto ao lance de, como muita gente diz, eles estarem queimando o filme de outras bandas brasileiras no exterior?
GERALD - Isso é ato de desespero deles, por estarem passando por um problema que nunca passaram, isso é normal, acontece com todo mundo. Mas deve-se tomar cuidado antes de falar mal dos outros, porque depois pode acontecer o contrário, é a lei de ação e reação.

RB - Mas eles estão jogando merda no ventilador e está indo pra todo lado.
WAGNER - Sempre jogaram.
GERALD - Mas sempre jogaram porque tiveram proteção da mídia, principalmente da brasileira. Eles sempre foram o xodozinho da imprensa, mas chegou a hora do pessoal ver que não é bem assim.
WAGNER - O problema é que eles eram bonitinhos, cabelinho de salão, e agora estão todos escrotos, tudo barrigudo podre [risos].

RB - Vocês acham que o Sepultura contribuiu para essa imagem de banda maldita que o Sarcófago sempre teve?
WAGNER - Pode até ser. Eles eram os bons mocinhos do metal e nós éramos os 'bad boys'.
GERALD - Mas, pra mim e pro Wagner, isso nunca influenciou nada, foi mais para o pessoal de fora. A gente sempre achou graça de tudo isso e eles [Sepultura] lá do deles devem achar graça também.

RB - [p/ o Wagner] Qual foi o real motivo da sua saída do Sepultura?
GERALD - O que aconteceu foi que o Wagner saiu da banda, ficou um clima esquisito, mas, dois anos depois, ninguém nem lembrava mais.

RB - Então, por que aquela mensagem contra o Sepultura no encarte do I.N.R.I.?
WAGNER - Aquilo foi porque o nosso baterista na época, o Eduardo, quebrou uma garrafa de pinga na cabeça do Andreas porque ele [Andreas] estava tirando uma onda. Depois disso aí é que o negócio esquentou mesmo, começaram a falar bosta pra caralho. Mas depois dessa briga principalmente, porque antes era só aquela coisa: "Ah, nossa banda é mais pesada", "Não, a nossa é que é".
GERALD - E a mídia sempre protegeu o Sepultura, sempre viu as coisas positivas que eles conseguiram. Então, o que adiantaria a gente chegar aqui e falar: "O que aconteceu mesmo foi isso, isso e isso"? Não ia adiantar nada. Então, não estávamos nem aí, que se foda.

RB - Mas, de certa forma, vocês chegaram a se aproveitar do Sepultura, já que o Rotting [segundo álbum] foi vendido lá fora como disco da banda de um ex-Sepultura.
WAGNER - Isso foi armação da gravadora, a gente não sabia de nada e, quando soubemos, ficamos putos pra caralho. Principalmente com a gravadora dos Estados Unidos, que pregou na capa um negócio falando disso aí. Eles acharam que iam lucrar mais fazendo isso e fizeram, mas só fomos saber quando a gente viu.
GERALD - A gente não tinha acesso. Eles estavam fazendo os discos lá e nós estávamos aqui no Brasil.

RB - [p/ o Wagner] Quanto tempo realmente você ficou na banda?
WAGNER - Um ano. Desde antes de chamar Sepultura, já que tiveram vários outros nomes. Os dois primeiros shows foram comigo.
GERALD - Na realidade, a banda era o Wagner e os dois irmãos.

RB - [p/ o Wagner] Por isso, você, que os conheceu desde aquela época, como encara o que está rolando?
WAGNER - Eu acho muito normal vindo de quem veio, porque aquele cara é muito falso. Essa é que é a verdade.

RB - Que cara?
WAGNER - O Max.

RB - Então, você acha que o problema é o Max?
WAGNER - Não, eu não acho nada, nem sei o que está acontecendo. Mas, pelo que eu conhecia deles, acho extremamente normal um irmão trair o outro naquela família, eles não medem muito as coisas para conseguir o que querem. Então, um irmão trair o outro ali, um trair a mãe, o amigo trair o outro... Se for pra ganhar grana, aposto que eles são capazes de fazer tudo.
GERALD - Mas essa é uma coisa que a gente não quer se meter. Toda banda passa por isso, o Ozzy não saiu do Sabbath?
WAGNER - Mas, no caso deles [Sepultura], eu não assusto, porque, pelo que eu conhecia de personalidade deles, sei que isso era extremamente fácil de acontecer.
GERALD - E todo mundo está se doendo porque aconteceu com a banda xodó do Brasil. Mas, eu pergunto: o que eu e o Wagner temos a ver com isso? Nada.

RB - [p/ o Gerald] Pô, ele fez parte da banda...
GERALD - Ele fez parte só das coisas ruins [risos].

RB - Teve até agradecimento pro Sarcófago no encarte original do Bestial Devastation...
GERALD - Teve de livre e espontânea pressão, porque o dono da gravadora na época, que é o mesmo da nossa hoje, deve ter mandado colocar. E tem música lá que era do Wagner. Pergunta se eles pagaram direito autoral pra ele?!? Eles camuflaram a música lá e pronto.

RB - A música é Antichrist, né?
WAGNER - É, Antichrist, a letra é minha. Mas eu também nunca corri atrás, não quero nem saber, eles que fiquem com aquela porra.
GERALD - Mas atitude digna de quem tem respeito por alguma coisa teria sido dizer: "Bom, tudo bem, essa letra é sua". Igual o que sempre fizemos com o pessoal que trabalhou com a gente.
WAGNER - Mas é exatamente o que eu estou te falando. Vindo deles, essas coisas são normais. Com a gente não, pois uma coisa que sempre prezamos nesse negócio de banda foi a amizade. Nunca dissemos: "Ah, nós vamos fazer isso aqui, por isso, vamos tirar o cara da banda" ou "O cara falou que não sei o que, então vamos tirar ele e colocar outro". Sempre foi na base da amizade. O Sarcófago sempre fez as coisas de acordo com as opiniões das pessoas que estavam dentro da banda, nunca se preocupando com quem está fora. É até um pouco de injustiça, mas nem com os fãs a gente se preocupa, nunca falamos: "Vamos fazer isso porque é isso que os fãs querem ouvir do Sarcófago". Nunca. Sempre fizemos o que estivemos a fim.
GERALD - Quando você faz algo, tem que assumir. Se a gente fez alguma coisa com bateria eletrônica e atingimos o objetivo, não importa se todo mundo entendeu, se gostaram ou não. Se gostou bem, se não gostou, amém.

RB - [p/ o Wagner] Você disse que depois que saiu do Sepultura, simplesmente mandou um foda-se pra tudo. Mas, na época, saiu uma entrevista com o Sarcófago em outra revista de rock em que vocês diziam que tinham tentado uma reconciliação. Isso é verdade?
WAGNER - Quem deu aquela entrevista não foi a gente, foram o baterista e o guitarrista da coletânea [Warfare Noise]. Um antigo empresário nosso participou daquela entrevista também e ele era amigo dos caras [do Sepultura] e ainda tentava ajeitar as coisas.
GERALD - Naquela época, eu e o Wagner não gostávamos muito de entrevista, a gente empurrava tudo pra eles. Agora, que somos só nós dois, não tem jeito.

RB - Então é um puta sacrifício pra vocês estarem aqui falando comigo?
GERALD - É um sacrifício entre aspas.

RB - E o cara ainda fica perguntando do Sepultura [risos].
GERALD - A gente faz essas coisas de dois em dois anos. Mais do que isso, não dá.
WAGNER - Mas pra BRIGADE a gente sempre gostou, nunca tivemos nada contra. Já colocaram até foto da gente na capa! Mas existem umas revistas aí em que a gente não faz a menor questão de aparecer.

RB - Vocês disseram que já há muito tempo usavam maquiagem e todo aquele visual pesado. Como vocês vêem todas essas bandas de black metal, principalmente européias, que estão lançando mão desses recursos hoje?
WAGNER - Eu acho que o pessoal tá muito porra louca, tá levando esse negócio de satanismo muito a sério, estão passando um pouco dos limites e eu não acho isso legal. Mesmo a proposta do Sarcófago nunca foi ser satanista, nem na época antiga. Nossa proposta era ser contra qualquer tipo de religião, ser agnóstico. Então, o que está contecendo agora é que o satanismo está virando uma forma de religião para esse pessoal. E como a gente é contra qualquer tipo de religião... Quer dizer, cada um tem sua religião, cada um acredita na sua força superior, seja ela do bem ou do mal. Mas, a partir do momento que você começa a se agrupar em função de alguma ideologia religiosa, nós somos contra.
GERALD - E há a questão do respeito. Por exemplo, eu resolvo virar satanista, tem uma igreja ali, eu vou lá e boto fogo. Eu não acho certo. Do mesmo jeito que, por exemplo, eu sou satanista, tem aqui nosso quartel secreto de Satã, vêm os católicos e botam fogo... Toda forma de protesto é válida, mas deve haver respeito.
WAGNER - Cada um tem que ter o seu direito de expressão e ninguém tem direito de intervir na opinião do outro.

RB - [p/ o Wagner] Você chegou a se corresponder com o Euronymous [ex-guitarrista do Mayhem e um dos líderes do 'Inner Circle' norueguês, assassinado por Varg Vikernes etc. etc. etc.]. Qual era a do cara?
WAGNER - Isso já faz algum tempo, uns 6 ou 7 anos. Na época, o movimento deles estava começando, não tinha ideologia formada. Mas deu pra notar que o cara era meio maluco. Ele mexia com química e falava que queria infectar não sei quem que tinha sacaneado com ele, injetar um vírus no cara, essas coisas. Eu até achava que ele tirava onda, mas depois fui perceber que o cara era pirado mesmo. Mas os caras lá sem meio rebeldes sem causa. Eles moram na Noruega, o país de melhor padrão de vida do mundo, não têm com o que se preocupar...
GERALD - Mas isso aí envolve um monte de porcaria também, como drogas pesadas, que aparecem na Europa a cada dia.

RB - Vocês não acreditam que essas coisas são jogada de marketing, como muita gente diz.
WAGNER - Não, é loucura mesmo. Agora, o que eu acho desonesto nesse negócio da Noruega é que o som dos caras é muito ruim. A qualidade de gravação do som é muito fraca. Tem algumas dessas bandas que são legais, como o Immortal, mas o Burzum, por exemplo, eu acho uma merda. O som da guitarra do cara parece que foi tirado do rádio com um microfone na frente.
GERALD - Mas aí você já está analisando a parte técnica.
WAGNER - É, mas os caras se apegaram demais ao visual e esqueceram do som. Acharam que o som é só fazer barulho, sem nenhuma qualidade de gravação. Até na época do I.N.R.I. a gente tentou fazer um negócio bem gravado: porrada, mas bem gravado. E o I.N.R.I. é de 87 e é mais bem gravado que muitos desses discos. Pô, e lá os caras têm grana!

RB - Saiu numa revista daqui que vocês estavam querendo fazer no Brasil a mesma coisa que o 'Inner Circle' da Noruega...
WAGNER - Quando saiu aquilo a gente leu e riu, o que a gente podia fazer? Quantas merdas já não escreveram da gente por aí? A letra de Satanic Terrorism conta a história desses caras, mas isso não quer dizer que a gente estava apoiando. Em nenhum momento a gente fala: "Isso é legal, é massa, tem que fazer isso". A gente só descreveu um fato.

RB - E a coletânea [Decade Of Decay, lançada no fim do ano passado]?
WAGNER - A coletânea foi um presente pros fãs das antigas. Tentamos caprichar bastante no encarte também, apesar de a qualidade das fotos, do fotolito, não ter ficado muito legal, senão o pessoal ia poder rir ainda mais. Apesar de vocês terem criticado, falando que tinha foto até de homem pelado no encarte, a intenção era zoar mesmo. Queríamos colocar fotos dos bastidores, gozações e tal.Tinha até uma foto desse cara [Gerald] muito indiscreta que ele mesmo foi lá e arrancou. A gente estava na Argentina e a porta do nosso banheiro não trancava. Daí, estávamos tirando fotos de todo mundo tomando banho. Quando abrimos a porta pra tirar a foto dele tomando banho, ele estava com os pés em cima da privada batendo o maior barro, igual uma coruja [risos]. Ele não estava sentado no vaso, estava se equilibrando lá em cima [mais risos].
GERALD - Lógico. Dormia cinco neguinho no quarto, todo mundo bebendo cerveja, toda hora ia um, mijava em cima do vaso e eu ia colocar minha bunda lá? Mas, voltando, o lance da coletânea foi um resgate do nosso material antigo, das demos antigas que nem a gente tem mais em cassete, só em rolo. Tentamos melhorar, embora muita coisa não tivesse jeito de melhorar, pro pessoal que quisesse conhecer. É um registro, que acho que vale a pena mostrar.

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