(por Karen Gimenez, Rock Brigade nº102, janeiro/95)
Conterrâneos do Sepultura (Wagner foi inclusive o primeiro vocalista do grupo), os mineiros do Sarcófago trilharam um caminho diferente. Mesmo tocando na Europa, eles ainda continuam longe das grandes arenas, seguindo pelos becos do underground. Depois de ameaçar optar por um som mais trabalhado em The Laws Of Scourge (91), o grupo hoje se resume à dupla Wagner (G) e G.G. (B) e voltou aos tempos antigos, à podreira ensurdecedora em Hate (94). Eles explicam tudo na entrevista abaixo:
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RB - O que
levou vocês a voltar aos tempos antigos em Hate,
depois de optar por um som mais trabalhado em The
Laws Of Scourge?
WAGNER
- Na época de Laws Of Scourge [N. da R.: quando a banda
era um quarteto], como nós somos democráticos, o disco acabou
ficando sem a identidade que queríamos. Só que, nessa mesma época,
a gente estava se deixando influenciar muito por outras pessoas.
RB - Que
pessoas?
WAGNER
- Os outros membros da banda que queriam fazer um som mais bem
feito. Eles são músicos bem melhores que nós. Acho que o
problema é esse, eles sabiam tocar e nós não.
G.G. - A partir desse disco, como somos nós
dois, resolvemos fazer um negócio bem cacetão [sic]. Pouco
trabalho de guitarra, algo mais marcante.
WAGNER - A gente não ficou satisfeito com o
resultado daquele disco. Não em termos de venda, porque ele
vendeu bem melhor do que os soutros, mas com o caminho que o
conjunto tinha tomado. Então, a gente resolveu fazer o novo
disco como um retorno ao verdadeiro espírito do Sarcófago.
RB - Desta
vez vocês estão satisfeitos com o resultado?
G.G. - Com
certeza.
RB - Foram
dois anos entre Laws e
Hate. O que aconteceu
com o Sarcófago nesse tempo?
WAGNER
- A gente esteve excursionando, fazendo shows na Europa - Espanha
e Portugal. Tocamos também no Chile e Peru. Promovemos muito o Laws,
inclusive no Brasil. Foi o disco que a gente mais promoveu. E
também teve o processo de reestruturação da banda. Estamos só
nós dois. O resto a gente despachou.
RB - Em Hate,
vocês gravaram apenas os dois e uma série de recursos eletrônicos,
principalmente em relação à bateria. Esse é o futuro da banda,
uma dupla acompanhada da tecnologia?
WAGNER
- A questão da bateria eletrônica todo mundo usa hoje, toda
bateria é trigada [ligada]. É o computador que dá o som na
bateria hoje em estúdio. Só que no lugar de usar um baterista,
nós fizemos o som num teclado, mas o baterista que vai gravar
dentro do estúdio, grava desse jeito. O tipo de som que a gente
queria fazer, não existe baterista capaz de tocar. Os bateristas
em geral são seres incompetentes. Pelo menos para o nosso tipo
de música. Sempre reclamam que é muito rápido.
G.G. - Nós gostamos de trabalhar com o absurdo.
Quando é parado, é parado mesmo, mas quando é rápido, é
muito rápido. A gente gosta de trabalhar com o exagerado.
RB - Como
é que está o esquema de divulgação de Hate?
Todo mundo sabe que vocês não gostam de fazer foto, de dar
entrevistas e coisas do gênero.
WAGNER
- A gente não queria mesmo aparecer.
G.G. - Nada de fotografia, nem de falar do
visual novo, pouca divulgação, pouca imprensa, esse negócio
todo. A gente quer ser totalmente underground, sem buscar muita
badalação. Só colocamos o disco na loja, sem pré-divulgação,
nada disso.
RB - Mas
as pessoas ficam sabendo...
G.G.
- (interrompendo) Só pelo que a gravadora faz e a gente não pôde
intervir. As únicas entrevistas que a gente está fazendo são
aqui [na RB] e na MTV. Isso porque o cara [da gravadora] insistiu
muito, porque a gente não queria. Queríamos deixar o pau rolar
solto sem precisar ficar falando em revista e jornal.
RB - Vocês
não acham que o fato de "se esconder" pode atrapalhar
nas vendas do disco?
WAGNER
- Mas a gente não tá preocupado se o disco vai vender ou não.
O que a gente queria era fazer o disco totalmente do nosso jeito.
RB - Mas
vocês têm ao menos idéia de como estão as vendas?
WAGNER
- Tá surpreendendo, vendendo mais do que a gente esperava. Não
sabemos em termos de números, mas a gente tem recebido muitas
cartas, principalmente do exterior. O pessoal aqui no Brasil
parece que não está entendendo direito a mensagem que a gente
quer passar.
RB - E a
turnê de lançamento?
G.G.
- A gente resolveu dar uma paradinha. Não vamos fazer show pelo
menos por enquanto.
WAGNER - A gente quer fazer a turnê lá fora
primeiro pra depois vir pra cá. [N. da R.: até o fechamento
esta edição, não havia nenhuma data marcada]
RB - Mas,
e no Brasil?
WAGNER
- Fazer show no Brasil dá muita dor de cabeça, porque o pessoal
não dá o devido valor às bandas nacionais quando se fala em
patrocínio, essa coisa toda, principalmente em São Paulo.
RB - Vocês
vão gravar algum videoclip?
G.G.
- Não estamos pensando nisso. Não pretendemos fazer, mas se
fizermos vai ser desde que não apareça a cara da gente.
RB - Por
quê vocês têm essa preocupação tão grande em não mostrar a
cara? Isso tem a ver com a mudança de visual?
G.G.
- É que nós sempre exploramos muito a história do visual e não
queremos mais fazer isso. Queremos explorar mais o som. Isso não
tem nada a ver com o visual porque, quando começamos, nós tínhamos
cabelo curto [N. da R.: Wagner hoje está de cabelo curto].
WAGNER - A gente se encheu de ter cabelo grande.
Todo playboyzinho curtidor de Pearl Jam está deixando o cabelo
crescer. A gente está sempre querendo ir contra a moda, contra
as tendências.
RB - Como
foi o processo de composição e gravação do disco?
G.G.
- Marcamos o dia da gravação, entramos no estúdio e gravamos.
Fizemos as músicas no estúdio. Não teve ensaio, não teve nada.
Gravamos em dois estúdios diferentes.
Wagner e G.G. encerram reforçando que não estão preocupados com o dinheiro que o disco possa vir a dar ou não. Deixam claro que tocam como hobby, pois cada um tem a sua profissão. Wagner é economista e G.G. trabalha no ramo joalheiro.
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