(Fernando Souza Filho, Rock Brigade nº 67, fevereiro/92)
O Sarcófago
é daquelas bandas que você ama ou odeia, e isto já faz parte
até do folclore do metal nacional. A trajetória da banda começou
em 86 quando participaram da coletânea Warfare Noise I
com duas faixas que chocaram tanto pelas letras quanto pelo som,
violentíssimo para a época. No mesmo ano saiu o LP I.N.R.I.,
onde assumiram de vez o seu som black metal, endeusado por uns e
detestado por outros. A polêmica que o Sarcófago sempre causou
se consolidou em 89 com o lançamento do álbum Rotting,
um grande sucesso tanto no Brasil como no exterior. No final de
91 veio a revolução na carreira do quarteto mineiro: The
Laws of Scourge. Produção acurada e amadurecimento lírico-musical
são características latentes logo na primeira audição deste
disco.
A Rock Brigade não poderia deixar de saber como foi este
processo de mudança, além de curiosidades como a briga deles
com o Ratos de Porão; por isso aí vai uma entrevista exclusiva
com Wagner (guitarra/vocal), Fábio (guitarra) e Gerald (baixo).
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RB - O álbum
The Laws of Scourge está mais thrash que
os trabalhos antigos, inclusive com passagens acústicas e músicas
mais longas, esta é a tendência atual do Sarcófago?
WAGNER
LAMOUNIER - Eu não diria que nosso som tenha tendido
para o thrash, o que tentamos fazer hoje em dia é o que o
pessoal lá fora chama de techno-death metal, e muita gente
confunde com thrash. Há uma tendência natural das bandas em
fazer um som mais trabalhado. O lance acústico e os teclados
caem bem quando colocados nas horas e lugares certos.
FÁBIO JHASKO - É um lance melhor elaborado mas
sem perder as características da banda.
GERALD MINELLI - Queremos mostrar que o death
metal tem seus valores musicais, por isso vamos evoluindo a cada
disco.
RB - Por
que decidiram regravar The Black Vomit?
GERALD
- Essa música foi nossa estréia em vinil e teve muita repercussão.
Lá fora o pessoal não a conhece tanto quanto as músicas do Rotting,
por isso quisemos fazer uma gravação mais legal.
WAGNER - Ela nunca apareceu em LPs nossos, só
naquela coletânea Warfare Noise I, que repercutiu legal
naquela época mas hoje quase ninguém conhece. É uma música
que o pessoal sempre pede nos shows, não podíamos deixar ela de
fora, é um presente aos fãs da banda.
FÁBIO - Todo disco o Sarcófago regrava uma música
(risos)...
WAGNER - Mas no próximo não vai mais ter
regravações.
GERALD - A fonte secou! (risos)
RB - O
tecladista Eugênio tem participado em discos e shows do Sarcófago,
ele já é um membro da banda?
WAGNER
- O Eugênio não está mais tocando conosco, arrumamos outro
tecladista, chamado Vanir, que é uma espécie de free-lancer no
grupo.
GERALD - Ele é um músico contratado para tocar
com a gente em todos os shows desta temporada. O Eugênio
trabalha em estúdio com bandas de Belo Horizonte, mas continua
amigo nosso.
WAGNER - Ele é muito bom, mas é casado e não
dá para nos acompanhar em show. Já o Vanir, toca guitarra e
teclados muito bem, porém, nós só o descobrimos agora. Talvez
no próximo disco ele toque novamente conosco, mas não como um
membro e sim como convidado especial, afinal, não usamos
teclados em todas as músicas.
RB - Este
disco também será lançado em CD no exterior?
WAGNER
- Sim, pela mesma gravadora que lançou o Rotting, a
Music For Nations/Under One Flag.
GERALD - Planejamos lançar este CD também no
Brasil.
RB - Vocês
são posers?
WAGNER
- (rindo) Isso é muito relativo. A partir do momento que você
está numa banda e tem que tirar fotos, você está se expondo,
então todo mundo é poser... No sentido pejorativo da palavra,
de poser como sendo essas "bonecas" tipo Bon Jovi e
essas bandas-farofa, nós não somos não!
GERALD - No começo nós dávamos muito valor
para o visual, talvez até mais do que para a própria música,
mas nós encaramos a banda com um pouco de teatro, como se fôssemos
personagens.
FÁBIO - Era mais pra chamar a atenção mesmo.
WAGNER - Um show não é completo só com o som.
O cara não vai ao show só pelo som, ele quer ver o visual da
banda. Se você sobe num palco com a roupa que vem da rua não
causa tanto impacto quanto um visual bem produzido. Somos fãs da
bandas que investem nesse aspecto, como o Kiss e o Alice Cooper.
RB - Por
que abandonaram o visual "carregado"?
WAGNER
- Só fizemos tirar os pregos porque era difícil tocar com tudo
aquilo. Se desse, tocaríamos até hoje.
GERALD - Se fosse para usar um ou outro
bracelete não haveriam problemas, mas usávamos pregos até no
saco (risos). Isto atrapalha mesmo. Saíamos dos shows todos
furados de prego, era muito perigoso.
RB - E
quanto às letras, que estão menos satanistas?
WAGNER
- No início, por influência de Venom e Hellhammer, tínhamos
nossos 16 anos e achávamos isto legal. Depois fomos amadurecendo
as idéias, tentando passar um lance mais real e não uma
fantasia de adolescente... Mas ainda mantemos nossa postura anti-religião.
Naquela época tentávamos passar isso mas não sabíamos como
fazê-lo, por isso apelávamos para o satanismo. Somos agnósticos
e totalmente contra qualquer tipo de religião.
RB - Vocês
ainda curtem sons antigos?
WAGNER
- Curtimos sim. Gostamos de Black Sabbath e Kiss antigos, além
do AC/DC com Bon Scott. O importante é não ser um lance
comercial.
GERALD - Mas também somos fissurados nesses
sons novos tipo Paradise Lost, Deicide, Bolt Thrower, Godflesh,
Morbid Angel. Procuramos captar de tudo um pouco pois isto também
é cultura. É importante para nós, que somos músicos, não
adianta abominarmos nada.
RB - Como
os fãs antigos estão recebendo esta nova fase do Sarcófago?
WAGNER
- O pessoal que curte Sarcófago desde o início está sacando
nossa evolução e curtindo tudo numa boa. Agora tem os caras
mais radicais tipo os fãs de Necrobutcher, que ficavam falando
que todo mundo havia virado farofa e hoje são todos boys! Nem
ouvem mais heavy! Tem muito cara que quer dar uma de radical só
para aparecer e um ano depois nem ouve mais metal. Nossos fãs
antigos nos acompanham até hoje.
RB - Então
aquele radicalismo antigo já está quase extinto?
GERALD
- Isto já está passando tanto no Brasil quanto no resto do
mundo.
WAGNER - Mas ainda existem radicais. O cara começa
querendo ouvir o que é mais porrada, tipo Napalm Death e Carcass,
e acha que o resto é "palha". No outro dia já cortou
o cabelo e virou boy.
RB - O
sucesso do Sepultura no exterior ajuda a abrir caminhos paa
bandas como o Sarcófago?
FÁBIO
- Não, pois todo caminho que o Sepultura abre para ele fecha
para o Sarcófago.
WAGNER - Exatamente. O Sepultura quer ser a única
banda brasileira no exterior. Estão lá em cima mas querem
guardar esse lugar só para eles.
GERALD - Já vimos revistas do exterior em que
eles dizem ser a única banda boa no Brasil, pois o resto é
banda de cover.
RB - Então
o Sarcófago está abrindo um caminho totalmente diferente?
WAGNER
- O Sarcófago criou um nome lá fora independente do Sepultura.
Muita gente já conhecia o Sarcófago antes de conhecer o
Sepultura.
RB - O
Wagner mora em Uberlândia, o Gerald em Belo Horizonte, o Fábio
em São Paulo e o Lúcio (baterista) em Araguari, como conciliam
esta distância com os compromissos da banda?
GERALD
- É uma questão de determinação. Nos dois últimos anos eu
perdi todos os finais de semana só viajando para ensaiar e para
fazer shows. Mesmo nas férias nós ficamos juntos, é um
investimento na banda.
WAGNER - Para gravar este LP, passamos dois
meses ensaiando e comendo o arroz do Gerald, que era muito ruim (risos).
Ficávamos com fome, mas ensaiando todo dia.
FÁBIO - O pior foi quando acabou o papel higiênico,
e toda vez que eu ia ao banheiro tinha de tomar banho (risos)...
WAGNER - O Fábio não gosta de tomar banho e
tinha de passar o dia inteiro indo ao chuveiro (risos).
GERALD - Ele teve de tomar Aspirina pois estava
com febre de tanto tomar banho! (risos)
RB - Numa
entrevista à Rock Brigade, o Gordo do Ratos de Porão falou da
briga dele com o Sarcófago, qual a versão de vocês para o caso?
WAGNER
- Todos sabem que nós e o Sepultura não nos damos bem desde
lances antigos lá de Belo Horizonte. O que aconteceu foi o
seguinte: o Ratos foi tocar em BH e tinha uma galera que curte
que ficou malhando os caras, cuspindo neles. O Max do Sepultura,
que estava lá, falou para o Gordo que o "pessoal" do
Sarcófago era quem estava cuspindo. Generalizaram a coisa como
se o Sarcófago tivesse estragado o show deles. Bem, nós
conhecemos o pessoal da Roadrunner lá fora e sabemos que o último
LP do Ratos está o maior fracasso de vendas no exterior, por
isso eles estão tocando em programas da Angélica e da Marianne.
Mas no Brasil isto não dá certo, o público aqui será sempre
limitado, não adianta ir nestes programas. Para poder aparecer
mais, eles malham a gente e até inventaram esta história de BH.
Quando nós tocamos aqui com o D.R.I., eles entraram no camarim e
fizeram o maior rolo só para se promoverem. É um golpe publicitário.
Eles não aceitam o fato de que humildemente nós vamos crescendo
lá fora enquanto eles estão decaindo.
RB - O que
os fãs podem esperar do Sarcófago para este ano?
WAGNER
- Vamos fazer uma turnê pelo Brasil e em março vou à
Inglaterra acertar uma tour por lá.
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