Ame ou odeie

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(André L. Cagni e Marco A. Fonseca, Rock Brigade nº47, ano 9)

Depois de um bom tempo parados, a banda retornou ao topo, com o lançamento do bem- sucedido LP, ROTTING, e mais uma vez colocou-se no centro de discussões altamente polêmicas. Com a palavra, o sr. WAGNER ANTICHRIST:

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RB - Pra começar que tal colocarmos uns pingos nos "is". Gostaria que você falasse um pouco a respeito do manifesto contra a religião que vocês colocaram na contracapa do último EP "ROTTING".
WAGNER - Aquele manifesto é simplesmente para explicar às pessoas a nossa opinião a respeito do assunto. Porque muitos falam que o SARCÓFAGO é satanista, fala do demônio, e queriamos expor a real sobre isso.

RB - Vocês não acham um tanto apelativo bater nesta tecla?
WAGNER - Não acho não, porque é realmente isso que pensamos, a religião é alienação. Da mesma forma com que a televisão tem sido igualmente um fator alienante. A religião faz com que as pessoas acreditem em Deus, se conformem com a vida que levam aqui, que se eles sofrem é porque Deus quer, e acabam deixando de acreditar em si mesmo, de procurar melhorar a situação. A mensagem que quisemos passar foi para que as pessoas comecem a acreditar mais em si mesmo e deixar de acreditar neste tipo de ideologia para que possamos melhorar esse país.

RB - Vocês já tiveram problema com algum crente ou alguma crença?
WAGNER - Nunca. Pelo menos por enquanto, não.

RB - Bom, de qualquer jeito no primeiro álbum vocês passavam uma mensagem satanista, e agora ela soa mais agnóstica...
WAGNER - Exatamente. Antes éramos mais jovens, era um lance de fazer por fazer, não tínhamos muita propriedade sobre assunto. Agora nós nos preocupamos em passar uma mensagem com as nossas letras.

RB - Você tocou no assunto televisão/alienação. O que você acha da parcialidade de informações que as emissoras praticam, ou mesmo do fato de elas terem sido sustentáculos do regime da ditadura?
WAGNER - Meu sentimento é de total repugnância.

RB - Mas e se vocês fossem convidados para tocar na Rede Globo, vocês iriam?
WAGNER - Olha, a gente sabe muito bem separar o lance profissional da ideologia. Nós estamos nessa é para se dar bem e tudo o que for bom para divulgar o nosso trabalho nós faremos.

RB - O próprio abandono da maquiagem e do visual mais carregado foi espontâneo?
WAGNER - Foi principalmente devido ao fato de que eu passei a assumir a guitarra além dos vocais e já foi uma dificuldade para eu conseguir coordenar bem as duas funções, e pra tocar além de tudo com todos aqueles lances, ia dificultar mais ainda. Já na época do I.N.R.I., a turma estava horrorizando muito com isso, atrapalhava demais. Nós optamos sempre em tentar fazer um show visualmente legal, desde que musicalmente não atrapalhe em nada. Mas pintura por exemplo, a gente não vai mais usar.

RB - Vocês são provavelmente uma das maiores cult-band brasileiras no exterior. O que você acha disso?
WAGNER - Não sei se é tão assim não, mas que a gente recebe carta pra caralho, isso recebemos.

RB - Vocês já estão com algum contato mais efetivo para gravações ou shows?
WAGNER - Até agora nada definido, inclusive eu nem gostaria de falar porque não está 100% certo, mas temos uma proposta para fazer 6 shows no Japão em agosto, em Cingapura também. Temos na mão um contrato da Earache, mas estamos sondando outras propostas pra não embarcarmos em barca furada. Nosso próximo álbum deverá sair por uma dessas gravadoras de fora.

RB - Como vocês se sentem sendo praticamente uma das útimas bandas de Death Metal do mundo, quando muitos têm imigrado para o Thrash Metal?
WAGNER - Não acho legal você mudar de estilo só por problemas de mercado. Tem sido muito bom pra nós essa imigração, porque acabamos cativando um público ainda maior e fiel, pois não somos o tipo de banda que toca o que os outros gostam, e sim tocamos o que a gente gosta.

RB - Como você definiria o seu som, Death Metal mesmo?
WAGNER - Não creio que nós somos uma banda de Death Metal como você falou, nem Black Metal. Nós evitamos ficar rotulando o tipo de som que a gente faz, nós simplesmente tocamos o que dá na telha, o que a gente quer.

RB - Você poderia fazer uma autocrítica dos seus trabalhos, desde a coletânea?
WAGNER - Eu acho que a coletânea foi muito boa para nós, entramos para gravá-la com muita garra, muito sangue para fazer o negócio, e acabou saindo 90% do jeito que a gente queria. Já o I.N.R.I. foi feito de uma forma meio porra-louca porque nós estávamos tendo altos atritos com a banda, não tivemos um bom tempo para gravá-lo e nem equipamento adequado. Eu gosto dele, o público curtiu muito, mas eu tenho a consciência de que ele poderia ter saído melhor. Agora o novo álbum eu fiquei plenamente satisfeito com ele, com a produção total, tudo foi feito mais conscientemente.

RB - Falando em consciência, você não acha que o mundo está mais para Aids, Pop, Repressão do que para Sex, Drinks and Metal?
WAGNER - Depende muito da mente da pessoa. Se ela for pessimista mais pessimista, eu acho que está mais para Aids, Pop, Repressão, mas se você for uma pessoa mais otimista, mesmo sabendo que está tudo por baixo mas querendo levantar, a coisa está mais para Sex, Drinks and Metal, afinal as pessoas também querem se divertir, pô!

RB - Por que vocês são tão perseguidos e incompreendidos?
WAGNER - Acho que isso acontece por que nós tentamos ser nós mesmos, não tentamos seguir padrão nenhum para agradar as pessoas. A gente segue o nosso cominho e tem muitos que sacam o que a gente faz, porém muita gente sequer conhece o nosso trabalho, e fala mal só por falar. Por isso que a gente escreveu aquele texto no disco, que é justamente para explicar, para tentar passar a nossa mensagem.

RB - Bom, vou mostar algo pra você em primeira mão, que é a votação dos leitores da Rock Brigade que sairá na edição de março. (N. da R. Esta entrevista foi feita antes da edição nº 46). Nela vocês foram eleitos a quarta melhor banda e também a pior banda de 89. O que você acha disso (Nessa hora aproveito e mostro alguns votos que separei)?
WAGNER - Acho que é isso mesmo, já que bandas que têm proposta como a nossa ou são odiadas ou amadas, não é o tipo de banda que você gosta mais ou menos. Ou o cara curte SARCÓFAGO ou detesta. Eu acho até bom que tenha pessoas que não gostem.

RB - E sobre a capa de vocês, que ao mesmo tempo chegou em segundo lugar entre "Coisa Mais Ridícula" e quarto como "Melhor Capa"?
WAGNER - Eu acho que se a nossa capa foi votada como "Coisa Mais Ridícula" foi justamente devido ao fato de que as pessoas não entenderam a mensagem que queriamos passar, achando que é um lance de porra-louquice. O que a gente tentou transmitir com ela é que a morte está beijando Cristo e ele está apodrecendo como uma pessoa normal, como qualquer um. A gente quis passar a imagem de que Cristo era uma pessoa normal, e não um enviado, um filho de Deus, que vai voltar, etc. Ele foi uma pessoa comum, que lutou por seus ideais e dançou.

RB - Bom, de certa forma vocês não acham que com o tipo de som ou atitude que vocês assumem, vocês não estão colaborando ainda mais com o radicalismo?
WAGNER - Pra ser sincero, eu acho que o radicalismo não está somente na cabeça daquelas pessoas que curtem som porrada, mas também por parte daqueles que curtem um som mais trabalhado e acham que o nosso som não passa de barulho e não prestam atenção pra ver qual é a musicalidade do negócio. Muitas pessoas que ouvem, por exemplo HELLOWEEN, chegam e falam que o nosso som não presta, essas pessoas também precisam ter a mente mais aberta. Eu não sou e nem nunca fui radical, curto todo o tipo de som, sendo bem tocado eu gosto. (N. da R. Nessa hora eu comento com ele que nós costumamos dividir os radicais em dois grupos: os de esquerda, aqueles que só curtem porrada, e os de direita, aqueles que só curtem hard rock).

RB - Eu fiz essa pergunta por causa de cartas que recebemos, como por exemplo esta (N. da R. Nesta hora eu lhe entrego a carta de alguém que se diz ser ex-fã da banda e que deixou de sê-lo por que descobriu que o baixista GERALD era fã de AC/DC), o que você tem a dizer?
WAGNER - Falar o quê, esse cara é um radical (risos)! A única coisa que eu sei é que a gente faz o que a gente gosta, se as pessoas acham que o nosso som farofou, problema deles, a gente está fazendo o que a gente quer.

RB - Vocês nunca foram uma banda de tocar muito, inclusive ainda nem tocaram em São Paulo, por quê isso?
WAGNER - Em São Paulo, a gente nunca tocou por que nunca tivemos esta oportunidade, inclusive ninguém nunca nós convidou, com um esquema legal. Agora o fato da gente não tocar muito é por que eu moro em Uberlândia, o baixista em BH e o baterista em Araguari, e agora estamos arrumando um novo guitarrista... Pra gente ensaiar para gravar este novo EP já foi um sacrifício. Nós queriamos arrumar um guitarrista da região que seja fera mesmo, para darmos shows e não queimar o filme (N. da R. Alguém se propõe?)

RB - A música TRACY foi feita para TRACY LORDS?
WAGNER - Ah! Tracy Lords, rainha dos filmes pornôs (Risos)! A Tracy da letra não é a mesma que a Tracy Lords, é outra. Apesar que eu sou fanático pela Tracy Lords também.

RB - Bom, e o seu dia, como é que é?
WAGNER - Bom, eu acordo, escovo os dentes, não, primeiro eu abro os olhos (Risos)! Não, falando sério, eu só estudo, foço faculdade de Economia na Universidade Federal de Uberlândia (UFU), toco todos os dias, e ensaio direto, todos os fins de semana em Araguari, na casa do baterista Manoel. A noite, é Sex, Drinks and Metal (Risos)!

RB - Então como economista que solução daria para o nosso país?
WAGNER - Bom, eu ainda estou no terceiro período, não dá pra falar com muita propriedade sobre o assunto.

RB - Não estrague uma pergunta legal, se te colocassem hoje no Ministério da Fazenda, o que você faria?
WAGNER - Pedia demissão (Risos)! A situação do país é crítica, mas eu creio que a solução não deve vir do governo, deve vir de uma conscientização da população. Nosso povo, pra falar a verdade, precisa de mais educação e se eu fosse do governo investiria mais nessa área e na saúde também. Só assim o povo teria condições de saber o que está acontecendo, e participaria mais nas decisões. Ah! Como economista a primeira coisa que eu faria era dar um jeito de sumir com o Collor e colocar o Roberto Freire lá (Risos). Afinal, deixa eu fazer uma propaganda do partidão, eu sou um filiado... e aliás todos da banda são do PCB, nesta parte todo mundo pensa igual.

RB - Muitos ainda polemizam a respeito das relações entre vocês e o SEPULTURA, você gostaria de dizer algo a respeito?
WAGNER - Nada a declarar sobre o assunto.

RB - Algo mais ameno, então. Que tipo de som vocês estão ouvindo hoje?
WAGNER - Muita coisa. Desde um som mais novo, tipo Grindcore, Death Metal, até Blues. Neste ponto a gente tem a cabeça aberta, e não é de agora não. O Manoel curte um som mais Crossover, bandas de Hardcore brasileiro. O GERALD curte mais CELTIC FROST, PINK FLOYD, NAPALM DEATH...Eu por exemplo sou fã de BATHORY, BLACK SABBATH, AC/DC com BON SCOTT...

RB - Muita gente aqui no Brasil, confunde Underground com confinamento, isolamento, acham que o cara não pode ter um equipamento legal, vender bastante discos, ter uma boa produção. Então pra finalizar, o que você acha disso, e o que o Underground é pra você?
WAGNER - Eu acho que Underground é algo que não tem cobertura grande de mídia, mas eu não vejo nada de mal numa banda subir, desde que seja fiel aos seus conceitos e coerente no seu som. O SLAYER assinou com o CBS, e nem por isso deixei de ser fã da banda, não fez como o CELTIC por exemplo que pisou na bola. Nós somos underground, e acho que o nosso tipo de som sempre será underground, nunca teremos um grande apoio da mídia.

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