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(Cezar Nemitz, Dynamite nº 13, 1993)
Sem dúvida, o SARCÓFAGO é uma das mais importantes bandas do cenário Death brasileiro. Entre polêmicas, novo disco, novo visual, radicalismos e muito álcool, a DYNAMITE foi bater um papo com o guitarrista/vocalista Wagner Antichrist e o baixista Geraldo Incubus (N. do R. ele estava escrevendo Gerald Minelli, mas o Wagner riscou e colocou Incubus por cima!). Às vezes as respostas vão parecer somente tiração de sarro. Será? Descubra você mesmo.
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DYN -
Vamos falar um pouco da história da banda.
GERALD - A
banda começou em B.H. em 85. Começamos sem nenhuma pretensão,
a não ser a de fazer o som mais porrada e agressivo do mundo.
Tivemos um convite para gravar uma coletânea "Warfare Noise
I" pela Cogumelo, depois como fomos destaque, gravamos o
primeiro LP em seguida "I.N.R.I." (87). A nossa intuição
desde o começo foi de tocar sem se importar se alguém iria
gostar ou não. Depois ficamos dois anos parados. O Wagner mudou
de cidade (foi pra Uberlândia) e os outros dois membros da banda
(Butcher e D.D. Crazy) saíram. Aí nós resolvemos continuar na
estrada, arrumamos um baterista para tocar no LP "Rotting" (89),
e só aí então resolvemos melhorar a banda.
WAGNER - Nós tentamos melhorar a banda, mas não
foi possível. O Sarcófago não tem conserto, é sempre uma
merda.
G - O negócio é o seguinte: é impossivel
fazer uma música com mais de três acordes. (risos)
W - Os cérebros já estão corroídos pela
pinga, a cachaça corroeu a mente do pessoal. Mais de três
acordes não dá pra decorar!
G - Depois fizemos o "The Laws of Scourge".
DYN - No
"Rotting" vocês eram um trio; depois viraram um
quarteto?
G - Na
verdade, no "Rotting" era uma dupla com um baterista
amigo nosso que resolveu dar uma força para gravar o LP.
W - Dar uma força só não! Ele ganhou grana
pra caralho para gravar aquela merda. (risos)
G - Depois resolvemos montar a banda para
voltar a fazer shows ao vivo. Nós conseguimos, você vai ver que
beleza!
W - A banda está totalmente entrosada.
G - Quer dizer, entrelaçada. Esse F.D.P. faz
uma cara que não troca as cordas da guitarra.
W - Já faz um ano que são as mesmas cordas. É
que a alavanca, é aquela que quando arrebenta a corda você
aproveita. É só afinar e acabou.
G - Alías nós temos um afinador eletrônico,
pois de ouvido não sei afinar não.
DYN - Isso
tudo pode sair na entrevista?
G - Deve
até, sinceridade aqui é o que não falta.
DYN -
Vamos falar das concepções das capas.
W - No
"I.N.R.I." a gente queria fazer uma capa escrota, tipo
num lugar onde ninguém tinha feito, na época ninguém tinha
pensado em fazer nada no cemitério. A intenção nossa era
chocar.
G - Existem dois itens principais da nossa banda:
cultuamos um visual da pesada, que seja diferente, horrorizante e
um som, não digo inaudível porque tem um monte de gente que
ouve legal. Nós vamos detonar um em primeira mão: O visual da
banda hoje é o seguinte: tem muito boy ficando cabeludo, então
todo mundo vai cortar o cabelo, todo mundo vai ficar careca.(N.
da R. já cortaram.)
W - Todo playboy que você vê, está com o
cabelo compridinho, camisetinha do NIRVANA, do PEARL JAM, etc...
Não que tenhamos algo contra essas bandas, mas temos contra o
embalo. Quando vira moda a gente não acha legal, porque a
massificação deturpa a mente.
DYN - E se
o Sarcófago um dia virar moda, a banda acaba?
W - Por
exemplo, se um disco nosso virar sucesso, o próximo vai ser
completamente diferente, um disco nunca pode ser igual ao outro.
DYN -
Voltando a falar das capas...
W - O
CD do "I.N.R.I." saiu com outra capa, mas ele é da
mesma sessão de fotos.
G - Uma coisa que eu quero falar é que esse negócio
dá mulher pra caralho!
DYN - O
que dá mulher?
G - Fazer
um showzinho. É só meia hora de palhetadas.
W - É a única chance de conseguir mulher.
Imagine, uns caras pé rapados com jeito de marginal (risos).
A capa do "I.N.R.I." deu um impacto, só que a gente
queria continuar no mesmo esquema, dando o mesmo impacto no lance
de Jesus Cristo. Nós somos contra a religião. Não contra o próprio
Cristo.
G - Nós somos contra a Igreja Católica, Apostólica
Romana. Abostólica!!!
W - Nós achamos que toda religião é alienação,
então se o símbolo máximo da religião é Jesus Cristo, vamos
detonar esse cara.
G - Não que estejamos atacando diretamente
Jesus Cisto, mas estamos atacando diretamente os princípios da
Igreja Católica, por que ela reina no mundo com normas babacas
que não tem nada a ver com a nossa opinião. É uma forma da
gente se manifestar, nós temos esse direito, então...
DYN - Aí
pintou a capa com a morte beijando Cristo do "Rotting"?
W - Exatamente,
falando que Cristo está morto. E a morte o beija, e ele está
apodrecendo. Ele era uma pessoa normal, sem essa história de
reencarnação. Ele tinha suas idéias e morreu como um cara
normal. Não tem que ficar endeusando.
DYN - E a
do "Laws"...?
G - Foi
um LP em que trabalhamos com temas sem nenhuma intenção. As
letras foram surgindo ocasionalmente, e terminavam em morte, em
suicídio ou homícidio.
W - Inclusive a capa tem a ver com a música
"Midnight Queen", que fala a respeito de uma criança
que morava no interior e que de repente saiu de casa para tentar
a sorte numa cidade grande, com aquela ilusão de vencer na vida,
e acabou caindo na prostituição. Ela viu que a realidade não
era nada daquilo que ela pensava, e o que sobrava pra ele
sobreviver era a prostituição. 50% dos casos de prostituição
são assim, a mulher tenta sobreviver independentemente e o que
sobra pra ela é o caminho "mais fácil" e para agüentar
o tranco ela se droga, e acaba se tornando um ciclo vicioso.
Finalmente, ela sai com um freguês, maníaco sexual, que tinha
mania de amarrar suas vítimas na cama, chicotear e enforcá-las
trepando. Depois, largava a mulher na cama com o chicote no pescoço
e a grana em cima do corpo, Só que não deu pra mostrar os
peitos na capa. A idéia era fazer com os peitos de fora, toda
detonada, mas houve censura. No "Rotting" tivemos a
capa censurada. Nos Estados Unidos ele saiu com uma capa preta. E
o "The Laws of Scourge" não pode sair com a música
"Prelude to Suicide", porque eles falaram que poderia
induzir os jovens americanos ao suicídio. E a "Black Vomit"
também foi censurada. Na Europa saiu tudo normal.
DYN - E
quanto àquele EP "Crush, Kill, Destroy"?
W - É
um caça níquel pra ganhar grana porque a gente estava fazendo
muitos shows ao vivo.
G - Nós tivemos dois bônus track que a
gravadora lá de fora pediu e foram lançados no CD, e no Brasil
não saiu. E como o mercado de CD no país ainda é restrito,
ainda mais no nosso estilo, nós resolvemos lançar em consideração
ao nosso público, para eles conhecerem essas duas músicas.
DYN - O
que você acha de depoimentos como o de Glen Benton do DEICIDE
que disse gostar de queimar animais vivos?
W - Glen
Benton é um cuzão. Eu fiquei sabendo das idéias do cara, eles
são mais amadores do que nós. O cara queima mesmo é a rosca (risos).
DYN - Por
onde vocês tocaram no exterior?
W - Foram
seis shows na Espanha, um em Portugal, um no Peru e mais
recentemente no Chile.
G - Lá no Peru, o Wagner perdeu o avião e não
foi.
W - Que é isso? Espiritualmente eu estava lá! (risos)
DYN - E
como vocês tocaram?
G - O
Fábio cantou.
W - Bebi demais e perdi o ônibus. Quando
acordei fui para a rodoviária, mais aí não tinha mais jeito.
G - Tocar em três é legal porque este cara
atrapalha a gente tocar. Ele poderia ficar só cantando.
DYN - Até
uns tempos atrás vocês não faziam muitos shows ao vivo. Porquê?
G - Eu
particularmente não tinha interesse. Sempre fui um cara
fissurado em estúdio, tanto que eu trabalho bastante em estúdio.
Eu vou limpar o estúdio do meu amigo Eugênio (tecladista) só
para mexer na mesa nas horas vagas, (risos) Nunca gostei
de tocar ao vivo, mas agora me sinto mais familiarizado.
W - Nós não tocamos porra nenhuma, a bem da
verdade é essa. Em estúdio a gente contrata a moçada, a gente
só tira as fotos, mas quem toca no LP são outras pessoas. A
gente só tem pose! (risos)
G - Eu não era muito fã de tocar ao vivo,
agora estou gostando mais, tanto que faz quase três anos que nós
estamos enrolando a moçada com o mesmo repertório. (risos) Já
estamos preparando a as músicas e em abril deve sair mais uma
merda.
W - Vai chamar "O Tormento do Nazareno
Continua", em inglês.
DYN - Qual
foi o lance mais engraçado que aconteceu com a banda?
W - O
mais engraçado foi quando o SPIKE (guitarrista do D.R.I.) entrou
no nosso camarim no Projeto SP para trocar uma idéia e um cara
do Sarcófago, que eu não vou falar quem foi, tinha acabado de
cagar no meio do camarim de tão bebado. Ele chegou, olhou, deu
uma cheirada e foi embora, não agüentou a onda.
DYN - Por
falar nisso, como foi aquela briga com os RATOS DE PORÃO naquele
show?
W - O
negócio foi o seguinte: era para o R.D.P. abrir os shows e
depois acabaram convidando a gente.
G - Na realidade, o Walcir (dono da Woodstock
Discos - promotor do show) chegou a perguntar se haveria algum
problema em tocar as três bandas, e eu falei: 'Não pode porque
é legal tocar duas bandas, ou você convida eles ou nós'. Aí
um cara do D.R.I. invadiu nosso camarim tomando as dores de outra
pessoa, e o Gordo veio querendo dar porrada. Mas nada ver, nós não
temos nenhum rancor contra ele, aquilo foi um pouco de ignorância
da parte dele. Mas nós demos o troco para ele, pois matamos o
show do D.R.I. no outro dia, nosso show foi considerado o melhor
pela crítica. E apesar do D.R.I. ser uma banda boa, não sou fã
deles. Se bem que gostei do show deles, mas nós mostramos que
sabemos fazer um barulho desorganizado legal que cativa a moçada.
DYN - Vocês
não ficaram com medo de voltar a tocar aqui em São Paulo?
W - Não,
tanto que já tocamos umas cinco vezes depois.
G - E o R.D.P. também não precisa ficar com
medo de tocar em Belo Horizonte, pois não vai acontecer nada com
eles, porque a moçada só vai no show se quiser.
DYN - Em
um dos LPs que saiu lá fora foi dito, pelo selo, que você era
do SEPULTURA e saiu porque a banda tinha ficado muito comercial...
W - Foi
no CD americano, os caras censuraram a capa do "Rotting",
e não tinham mais nada para falar, e acabaram dizendo isso aí.
Não sei de onde eles tiraram essa idéia.
G - Não teve nada a ver com a gente, não foi
uma coisa que nós fizemos, nos pegou de surpresa. Não
autorizamos isso. Quando eu recebi o CD pelo correio fiquei
horrorizado. Imediatamente liguei para o Wagner e perguntei se
ele tinha autorizado aquilo. Inclusive está rolando um processo
contra isso.
W - É underground. Nós não temos pretensão
de ser rockstar.
DYN - Na
opinião de vocês, quais são as melhores bandas nacionais?
W - SEXTRASH,
EXPULSER, CIRRHOSIS, GENOCÍDIO.
G - Eu respeito muito o trabalho do OVERDOSE, é
uma banda que sempre fez o que deu na cabeça. E apesar do som
deles ser mais viável à mídia que o nosso, eles sempre foram
uns caras bons de serviço. Tem também o DORSAL ATLÂNTICA.
DYN - Qual
foi o momento mais difícil da banda?
G - Todos
foram fáceis.
W - Tem sido tudo fácil, porque nós não
levamos nada muito a sério, não temos pretensão. Tem muito
cara que quer ser o novo deus da guitarra, ou nova banda revelação...
G - Nós tocamos querendo satisfazer o nosso ego
de músico, quero dizer, de projeto de músico. Tocar em lugares
pequenos é muito mais satisfatório do que tocar no Hollywood
Rock onde 99% das pessoas não vão estar entendendo o que nós
estaremos tocando.
DYN - Então,
no novo disco, o visual será com cabelos curtos?
W - Basicamente
faremos tudo que não tinhamos feito antes.
G - Tudo que a gente estiver fazendo um dia e
estiver dando certo, no outro a gente corta pra começar tudo do
zero. A realidade é essa, começar do zero a cada dia.
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